dúvidas, receitas, avós e as redes sociais: o que isso tudo tem a ver?

11 01 2009

Participei recentemente de algumas discussões a respeito do uso das redes sociais como forma de gerar novos negócios. As perguntas são oriundas de profissionais pouco antenados com o assunto, aquelas que ficaram seduzidas pelas experiências positivas contadas por amigos (também impressionados) ou divulgadas pela mídia de massa.

Eu até entendo a boa percepção sobre o assunto por parte deles. Diariamente recebemos informações estrondosas sobre o crescimento exponencial de participantes em redes sociais; a velocidade como são criadas e aceitas por milhares de pessoas; os holofotes direcionados a seus criadores, usualmente associados a gênios, e as cifras mirabolantes de valor de mercado incorporado ao negócio.

Considerando esses ingredientes, não tem como a receita do bolo, daqueles criado pela avó, deixar de ter a forma, o aroma, o sabor e o sentimento agregado m-a-r-a-v-i-l-h-o-s-o. Usei logo esse exemplo para criar uma referência próxima no sentido de exemplificar as perguntas e respostas de entrevistas e workshops em que tenho participado.

Adoro bolos e não seria difícil criar uma comunidade “Gosto do bolo da avó” (se é que já não existe) e ter uma legião de participantes. No entanto, minha (falecida) avó era japonesa e deixou memoráveis recordações pela receita do “Ozooni”, um dos pratos típicos de Ano Novo, nada semelhante a um bolo, servido na data para atrair saúde, felicidade e fortuna no novo ano.

Feita a introdução, quero compartilhar com você as freqüentes dúvidas do mundo corporativo em relação às “redes sociais” (lembrando que este também é um termo criticado por alguns). Como acredito na inteligência coletiva, convido você a comentar sobre algumas perguntas e respostas. Lembro, aos mais radicais, que faz parte do nosso trabalho estudar e debater o tema. Para quem pergunta, ainda é uma experiência incipiente e por isso algumas coisas podem parecer básicas ao extremo. Vamos lá!

Devo participar de todas as redes sociais ? MSoma – Acho que ninguém deve participar de todas as redes sociais apenas por participar. Até porque entrar nas comunidades e não estabelecer relacionamentos não faz sentido e “cair no limbo” será o caminho mais comum. Teria pouco interesse informar na comunidade do “Gosto do bolo da avó” as evoluções do “Ozooni”, com o intuito de forçá-las a gostar do prato que eu tanto aprecio e valorizo. Participar significa estar engajado com o tema e com as pessoas. O que não for legítimo será expurgado.

Devo participar somente daquelas redes sociais mais renomadas? MSoma – Esse é um preconceito, no estilo “referência cruzada”, criado pelo mundo corporativo. Isso vai bem na linha “devo anunciar somente nas mídias que têm bom número de circulação/leitores”. Quando entramos nas redes sociais – e boas redes, com volume e qualidade ainda não entraram no mainstream media tradicional – buscamos o valor agregado de falar e ouvir. Se fizermos uma analogia na mão contrária (social media para corporativo), eu diria que o ROI (Return On Investiment) está na espontaneidade das pessoas ajudarem ou darem uma resposta legítima a um dilema seu, o que pode até ser uma reflexão sobre o bolo da avó que ninguém nunca havia pensado ou expressado antes.

Uma empresa pode enviar mala-direta ou press releases (tradicioinais) para os participantes de uma rede social? MSoma – Fazer isso representa o mesmo ato de xingar, c-u-i-d-a-d-o-s-a-m-e-n-t-e, a avó de cada um. Estamos falando de P2P (pessoas para pessoas) e não de B2B ou B2C. Deve-se ter em mente o estabelecimento do diálogo e a geração de interesses por atração e não pelo empurrão (vide relação do bolo da avó com o Ozooni).

Como eu faço para obter um mailing list das pessoas de uma comunidade para estabelecer um network consistente? MSoma – Olha a “referência cruzada” novamente. De nada adianta mapear e ter um mailing list dentro de uma rede se o conteúdo a ser “dialogado” não for consistente e interessante. Se isso for feito de forma legítima, naturalmente as pessoas vão comentar, pedir para entrar em sua rede e daí em diante as coisas fluem bem. Caso contrário, melhor nem começar.

Qual a diferença de uma rede de interesses em comparação a uma de propósitos? MSoma – Numa rede de interesses, como o Orkut, as pessoas formam seus grupos por assuntos e afinidades, como por exemplo: bolo da avó e Ozooni. O conteúdo é bem flexível (fotos, vídeos, testemunhos, recados…). As regras beiram o bom senso e os bons princípios. Já numa rede de propósitos, geralmente há um “owner” do negócio e as regras são bem mais rígidas. Por exemplo, no LinkedIn as pessoas buscam relacionamentos profissionais, onde o bolo da avó teria pouco espaço, mas por outro lado, informações sobre a formação acadêmica e a experiência profissional, seriam temas críticos. Nesse caso, não só o número de contatos é importante, como também a qualidade dos endossos recebidos por clientes/chefes, os cargos alcançados em cada emprego ou mesmo os empreendimentos desenvolvidos ao longo de uma carreira de sucesso.

UPDATE: E aí a turma acorda para a realidade. Veja o email recebido por um profissional que sacou bem o que está acontecendo hoje:


“Mario,

Eu costumava pensar que a comunidade das mídias sociais era uma alternativa à mídia tradicional, na verdade após ter te conhecido e mergulhado no tema percebo que existe uma total complementariedade entre estes dois mundos da comunicação.

A mídia social representa uma evolução natural da mídia tradicional, que sempre terá seu espaço, mas quando falamos em espaço automaticamente nos remetemos àquilo que não vemos lá no céu escuro, mas que certamente sabemos que é grande… grande … tão grande quanto o infinito.

Se podemos chamar ao mundo das midias sociais de mundo virtual, basta que perguntemos aos protagonistas deste universo como o Google e suas iniciativas bilionárias se o dinheiro depositado nas contas bancárias de seus acionista é real?

E creio que a reposta virá automaticamente: Claro que não é Real, mas seguramente não é virtual. É em Dólares.

Abraços,

Eduardo Bomfim”

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Seminário Redes Sociais: um olhar da platéia

19 08 2008

Por uma questão de tempo, fiquei apenas em dois painéis do Seminário “Redes Sociais – A nova mídia é o consumidor”. Saí com dor no coração, depois de bater um papo rápido com Jeff Paiva, Bia Kunze, Rogério Silberberg, Sandra Carvalho, Manoel Lemos e Edson Mackeenzy.

Neste post, registrei meu olhar e percepções sobre alguns pontos que me chamaram a atenção nos painéis:

Caio Tulio Costa (IG) – de forma enfática, comparou a audiência da mídia social com a mídia tradicional:

  • Existem 59 milhões de internautas;
  • As principais 26 revistas semanais geram 3,7 milhões de tiragem. Esse número multiplicado por 5 leitores, que é uma métrica padrão de mercado, representa um potencial de 18,5 milhões;
  • Os 30 maiores jornais do Brasil geram 3,5 milhões de tiragem. Esse número multiplicado por 5 leitores, representa um potencial de 17,5 milhões;
  • A soma de jornais e revistas totalizam 36 milhões de audiência, versus os 59 milhões da web;
  • Nesse cenário, as classes C e D estão crescendo em participação e passam a acessar a internet de vários locais, inclusive lan houses.

Mercado cresce, mas o profissional qualificado ainda é raro – da platéia veio uma pergunta na linha: “qual é o perfil adequado para se trabalhar nos portais?”

Caio Tulio Costa (IG) – explicou que não é fácil encontrar profissionais qualificados e, por esse motivo, o IG realiza um treinamento com oito meses de duração. Segundo ele, mesmo o jornalista com bom texto e faro para a notícia tem dificuldades de se adaptar ao mundo do SEO, como por exemplo a repetição de palavras-chave no mesmo texto.
Guilherme Ribenboim (Yahoo!) – afirmou que realmente é difícil encontrar um perfil adequado para as oportunidades de trabalho. ” Levamos em média 75 dias para preencher uma vaga.”

Protesto e incompetência

Caio Tulio Costa (IG) – Na sua visão, não dá para receber investimentos da ordem de 3% do total da receita publicitária em algo que representa o futuro. “Temos que superar a nossa incompetência em mostrar o valor para o mercado.”

Sobre transparência, feedbacks e controle: foi polêmica a discussão. Destaco alguns comentários feitos pelos convidados do painel.

Reinaldo Azevedo (Veja.com) – “excesso de transparência não funciona nem em casamento.”

Manoel Lemos (BlogBlogs) – destacou três aspectos a considerar sobre os blogs corporativos:

  • A cauda dos blogs é realmente longa, “com cabeça de bulldog, corpo de piquenes e uma cauda a perder de vista”;
  • Relevância é algo perecível, portanto esse é um ponto de atenção;
  • Feedback aos leitores é crítico. “Se a empresa não responder, o Google responde.”

Carlos Merigo (Brainstorm #9) – disse que migrou do Youtube para Videlog porque se cansou das respostas automáticas do Google.

Lucia Freitas (Ladybug) – “o leitor tem inteligência, ele não precisa de tutela.”

Sobre comentários negativos nos blogs:

Reinaldo Azevedo (Veja.com):

  • A internet democratizou a informação, porém, quando a crítica não agrega, vale a máxima da canção: “cada um no seu quadrado”.
  • Explicação para uma pergunta da platéia: “existem blogs sem área para comentário porque alguns profissionais não têm tempo para responder a todos.”
  • É fácil identificar os críticos de plantão: “para cada pegada, você conhece o tamanho do gigante.”

Manoel Lemos (BlogBlogs) – “tirar alguma coisa da rede é como tentar tirar xixi da piscina.”

Carlos Merigo (Brainstorm #9) – Na propaganda tradicional, os perfís são traçados por sexo, idade…Na internet existem apenas “pessoas”.

Sobre a polêmica dos jabás:

Carlos Cardoso (Meio Bit) – “recebi o grill do George Foreman, usei, mas não deu para devolver… (risos da platéia nesse momento!!). Adorei e escrevi sobre o produto. Todos os meus leitores sabem da minha relação com as empresas e os produtos. Deixo isso bem claro.”

Carlos Merigo (Brainstorm #9) – isso é comum no meio jornalístico, por que deveria ser diferente com os blogueiros?