conceito de jornalismo cidadão é crítico para os projetos de mídia social

29 03 2009

A minha infância foi marcada pelo programa “O Pulo do Gato”, recordista de permanência no rádio brasileiro (35 anos), com suas históricas características: mesma emissora, mesmo horário e mesmo apresentador. Eu morava com minha família num sobrado tão pequeno que, enquanto meu pai fazia a barba pela manhã, dava para ouvir o resumo das notícias do dia anterior em seu radinho de pilha lá da cozinha, onde minha mãe coava o café. Cresci com uma forte referência de que o jornalista “âncora” era – e ainda acredito que seja – um profissional admirável, sério e respeitado. Algo comparável aos grandes artistas de filmes e TVs. Sou radialista e jornalista por formação, sob as influências das décadas de 70 e 80.

Com o amadurecimento da cultura de mídias sociais, nos últimos meses, essa relação “âncora” e “ouvinte” mudou. Passei a refletir muito sobre a importância, nos projetos corporativos, do tema citizen journalism ou jornalismo cidadão ou ainda user-generated content. Esse foi um conceito cunhado no início do século XXI, nos EUA, que destaca o fato das pessoas – não apenas os jornalistas de formação – coletarem, narrarem, analisarem e divulgarem informações ativamente, num processo semelhante ao aplicado na imprensa tradicional.

A jornalista e escritora Ana Carmen Foschini tornou-se referência no tema citizen journalism e lançou o livro “Jornalismo Cidadão – Você faz a notícia”, com download grátis pela web. Segundo Foschini e Roberto Romano Taddei, co-autor da obra, esse fenômeno está em pleno desenvolvimento e, por isso, coexistem várias formas de nomeá- lo:

  1. Jornalismo participativo – Ocorre, por exemplo, nas matérias publicadas por veículos de comunicação que incluem comentários dos leitores. Os comentários somam-se aos artigos, formando um conjunto novo. Dessa forma, leitores participam da notícia. Isso é mais freqüente em blogs.
  2. Jornalismo colaborativo – É usado quando mais de uma pessoa contribuiu para o resultado final do que é publicado. Pode ser um texto escrito por duas ou mais pessoas ou ainda uma página que traga vídeos, sons e imagens de vários autores.
  3. Jornalismo código aberto – Surgiu para definir um estilo de jornalismo feito em sites wiki, que permitem a qualquer internauta alterar o conteúdo de uma página. Também pertencem a esse grupo vídeos, fotos, sons e textos distribuídos na rede com licença para serem alterados e retrabalhados.
  4. Jornalismo grassroots – Refere-se à participação na produção e publicação de conteúdo na web das camadas periféricas da população, aquelas que geralmente não participam das decisões da sociedade. Quando elas passam a divulgar as próprias notícias, causam um efeito poderoso no mundo da comunicação. Quem usa esse termo defende a idéia de que o jornalismo cidadão está diretamente relacionado à inclusão dessas camadas no universo criado pelas novas tecnologias de comunicação.

Entre os mais comuns, Foschini e Taddei classificam o estilo de participar dos cidadãos jornalistas (tradução que eles adotaram para citizen journalism):

  1. Publicador – Tem páginas pessoais (blog, flog, vlog) ou produz podcasts com notícias, independentemente do assunto abordado.
  2. Observador – No universo do jornalismo cidadão, quem tem um gravador, uma câmera ou um celular está pronto para registrar eventos. imprevisíveis. Muitas vezes, esse observador torna-se fonte de notícia por acaso.
  3. Militante – É o cidadão jornalista que defende uma causa ou dedica-se a um assunto com paixão. Nesse tipo encaixam-se os torcedores de times de futebol, defensores de partidos políticos ou de causas como ambientalismo e a defesa de minorias. O militante pode dedicar-se também aos fatos referentes a sua comunidade, seja ela um prédio, um bairro ou uma associação.
  4. Comentarista – É o cidadão jornalista que se manifesta nas páginas já existentes da web. Ele exercita seu papel por meio de comentários em blogs, flogs, vlogs, fóruns, comunidades ou em portais da grande mídia.
  5. Editor – Seleciona notícias e participa de comunidades ou sites colaborativos nos quais é possível sugerir links da grande imprensa ou de páginas pessoais.

Na opinião dos autores, esses tipos são apenas uma maneira de explicar diferentes formas de participação e não são categorias fixas, combinam-se. Um cidadão jornalista pode ser ao mesmo tempo editor e publicador, por exemplo. Procure identificar em qual desses grupos você se encaixa e com qual ferramenta se sente mais confortável.

A não utilização do conceito de citizen journalism, no “estilo de participar dos autores” mencionado acima, me fez correlacionar com algumas situações vivenciadas em projetos:

Comentários em blogs corporativos:

Mesmo desconsiderando os aspectos básicos, como o propósito do projeto, arquitetura, layout, linha editorial, público,etc, surgiram fatos interessantes do tipo:

  • Quando o assunto é complexo e o autor é um expert, no nível de um “âncora”, ainda sim faltam comentários. Bem, isso não significa que as pessoas não leiam o conteúdo, mas a falta de diálogo preocupa. O auto-avaliado “leigo” não comenta, mesmo interessado, com medo de fazer uma pergunta classificada “básica”. Neste caso, falta proximidade entre as partes, talvez causado pelo resquício cultural que distanciava astros e fãs, antes da Era We Media. Não custa nada o autor mudar o tom da conversa e enfatizar o convite para a discussão, além, é claro, de todas as revisões necessárias dos aspectos que atraem e repelem as outras pessoas.
  • Existe ainda um ângulo preconceituoso. Assim como nas mídias tradicionais, se a pessoa escrever “uma carta”, o equivalente ao comentário no post (na cabeça dele), receberia a mesma importância da “Página do Leitor”, reservada nos jornais/revistas, ou seja, a atenção seria menor do que a real intenção.
  • Comentários considerados pouco relevantes pelo autor: aí entra um ponto relativo, pois pode ter sido relevante registrar o “oi, adorei” por quem fez. Mas se olharmos pelo lado do citizen journalism, caso a mesma pessoa tivesse consciência do valor de sua opinião bem estruturada, poderia agregar mais valor aos demais, estimulando e enriquecendo o debate.

Participação em ambientes web corporativos, de fórum interno, com recursos multimidia:

  • Conteúdo num só formato: geralmente texto. Na maioria das empresas, esses projetos, no formato social media, ainda são novos e merecem um tempo maior de educação e cultura. Se outras alternativas forem aplicadas (vídeos, fotos, slides…), certamente terão seguidores e adeptos.
  • Mais sugestões e críticas sobre a empresa do que registro dos fatos: de novo o citizen journalism faz falta. Poucas pessoas ainda têm o hábito de fotografar, filmar, usar o twitter, fazer uploads no slideshare ou slide.com, por exemplo. O registro de alguns acontecimentos ganham mais valor “ao vivo” (vídeo abaixo exemplifica bem) e outras, quando mixadas com demais informações, devidamente apuradas.

O treinamento é apenas o início. Não se iluda:

  • É comum depois de um workshop e um social media training ouvir na “área do cafezinho” ou nos corredores da empresa uma pessoa dizer firmemente que agora sim sabe utilizar twitter, flickr ou blogar somente porque passou alguns dias dentro de uma “sala de aula”. Isso é pura ilusão se não houver o engajamento pelo uso consciente. Depois de tudo isso ainda vem a fase do aprimoramento da linguagem e, a cada novo contato, um grande aprendizado.
  • No aprimoramento do meu papel como adepto do citizen journalism, aprendi a escrever com calma, fotografar, produzir apresentações, twittar e a investir na apuração dos temas, considerando ainda critérios de autoria, ética, confidencialidade, entre outros. Não é mole. Ainda engatinho, mas reforço a importância das pessoas continuarem investindo nesta direção até pegarem gosto pelo negócio. É uma conquista sem volta.

Minha mensagem final: entenda, adote e pratique o citizen journalism. Só assim poderemos experimentar boas e novas experiências no mundo corporativo, pois fora dele isso já está bem mais avançado.

Aguardo seus comentários, fique à vontade para colaborar!


Ações

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14 responses

29 03 2009
jornalismo cidadão é crítico para os projetos de mídia social « BlOg PrOnToCoMmErCe

[…] See the original post here: jornalismo cidadão é crítico para os projetos de mídia social […]

29 03 2009
Träsel

Confesso que não percebi a ligação entre projetos de mídia social e jornalismo cidadão que o título do post promete. Curto e grosso: o que exatamente você quis dizer?

29 03 2009
msoma

Trasel, enquanto as pessoas do mundo corporativo não se conscientizarem sobre a importância da geração de conteúdo no conceito do citizen journalism será muito lenta a evolução, por mais que nos esforcemos com o lado da cultura e educação.

29 03 2009
Carlos Medeiros

Eu gostei da análise, e concordo plenamente com ela. Um ponto me chamou a atenção: sobre os comentários, típicos do jornalismo participativo, e a falta deles.

Creio que, além dos motivos já relacionados pelo autor, a falta de um artigo polêmico e de ilustrações, sejam vídeos ou imagens que representem o artigo em questão, possam desencorajar os leitores ao debate. São poucos os brasileiros que têm o hábito da leitura, nós temos preguiça de ler, principalmente, quando não existem imagens ilustrando o texto.

Sei que a estrutura e a organização do texto tem um peso muito grande nos bons artigos, mas vou contar um segredo. As pessoas querem ouvir “opiniões” sinceras, e é isto que um bom blogue deve oferecer.
Um cordial abraço

29 03 2009
msoma

Carlos, obrigado pela sua colaboração. Estou preparando exatamente isso que vc sugeriu, com um tema em linha e polêmico. Não será um texto, provavelmente um vídeo e contará com a opinião de todos os hubs prioritariamente envolvidos. Assim que for publicado, aguardo seus comentários🙂

31 03 2009
Augusto Pinto

Mário, acho o tema relevante, mas a correlação com Social Media não é óbvia (concordo com o Trasel). Vou abordar o assunto em “Liçoes da Vida”.

abs

1 04 2009
msoma

Agradeço os comentários e fiz alterações. Abs.

1 04 2009
Sheyna

Realmente, falar sobre um assuntop de peso como este não é fácil. Sempre haverá pontas soltas, que alguém encontrará.
Eu, como semi-leiga, gostei e entendi seu ponto de vista.
A cada vez que leio algo como o que escreveu, me vejo como alguém que produziria bem trabalhando nestas áreas.
Quanto aos perfis de cidadão jornalista kkk, acho que não me enquadraria em militante, só. De resto, mantenho meu blog, mais de um, e quando entro no de alguém, raramente saio sem comentar. É necessário uma extrema falta de interesse da minha parte pra isso acontecer.
Acho que participar, dizer o que você acha, o que você concorda ou não, é de suma importância.
O problema é que, muitas vezes, acontece o que você citou, as pessoas não dão bola. Sei que já tentei debater temas, entrando com opiniões sobre determinados assuntos, mas não é sempre que você recebe uma atenção. Aí se pergunta: nossa, será que minha pergunta foi muito burra? Será que a minha opinião foi e é tão desastrosa assim?
Sei que quando lancei o Publiteclando, ele estava indo bem, levantando interesse de várias pessoas, que achavam inclusive tratar-se de alguma agência de PP. Ponto pra mim. Porém, tive um surto e parei de postar uns tempos, pronto, afastei todo e qualquer público, e ele está às moscas de novo.
Agora com o Twitter, já ouvi dizer que ele serve como micro blogs, né, mas confesso que ainda estou quebrando a cabeça pra entrar no clima do negócio, ainda.
Oh Mário. Dá uma chance de eu trabalhar com vocês, aí, dá? kkk
De qualquer forma, adorei o post e conteúdo. Não critico não.
Dentro do meu contexto, ele serviu e entendi. Navegar de blog em blog, acompanhar opiniões, daqui, dali, muito me interessa… bem, sempre tive curiosidade pelo comportamento do consumidor. Nas mídias, sinto que uno interesses. Então, em partes sou observadora, mas normalmente participo, e edito os meus blogs tb. De militante só se for no O Fantástico Mundo de Sheyna, quando relaciono o filme Amelie Poulain e sua influência em anúncios e vida das pessoas mesmo, por exemplo, que é uma opinião puramente minha, não exclusiva, mas formada por mim, a partir daquilo que gosto, vejo, acompanho, acredito. Mas aí, não defendo a ferro e fogo, como torcedores fazem com seus times.
Abraço.

3 04 2009
msoma

Agradeço a todos os comentários até hoje que me ajudaram a aprimorar este blog diariamente:
http://botd.wordpress.com/2009/03/31/growing-blogs-1068/

5 04 2009
Träsel

Legal, as mudanças deixaram bem mais clara a relação entre uma coisa e outra.🙂

5 04 2009
msoma

Obrigado Träsel. Sua opinião é sempre muito importante para meu aprimoramento. Abs.

10 05 2009
um olhar precioso « social media club

[…] nunca fui fã de fotos. A minha opinião mudou radicalmente quando entendi melhor o conceito de jornalismo cidadão. Prova disso é o meu flickr que registra semanalmente o meu olhar sobre os fatos do cotidiano. […]

18 05 2009
Open Journalism « Jornalismo e algo mais….

[…] citizen journalism (jornalismo cidadão) é um tema bastante polêmico, que deveríamos dar mais atenção, pois podemos nos surpreender futuramente com esse jornalismo open […]

20 01 2011
DÁ PRA CONFIAR NAS INFORMAÇÕES DO TWITTER? « youPIX

[…] o hype do jornalismo cidadão se estabeleceu lá no comecinho de 2006, todo mundo entendeu que era obrigação ser um pouquinho jornalista e filmar tudo o que via, e […]

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