“Após três intensos anos de workshops e oficinas em mídias sociais, em que estágio você está? Teoria, Prática ou Atitude?” Esta foi a pergunta que eu fiz na introdução do módulo “Entrando em Campo” da Academia 2.0, realizado há três semanas no Grupo RMA.
Desde o início, a missão de mergulhar no mundo da mídia social não foi fácil. Digo sem medo de errar que a referência abundante e os conceitos bem diferentes, tanto culturais quanto conceituais, tornaram o trabalho de quebrar paradigmas bem árduo. O lado gratificante foi o de compartilhar estruturadamente o conhecimento adquirido com os demais interessados, em contatos pessoais ou via web, e trocar conhecimentos de maneira aberta.
Somente neste último workshop me dei conta que nos últimos 30 meses foram desenvolvidos 24 módulos, uma carga superior a 80 horas de dedicação em educação e cultura para mídia social. Percorrido todo esse caminho eu resumiria como essencial aprendizado os 5P’s de Lon Safko registrados na Fast Company: perfil bem feito nos canais sociais; produção de conteúdo com valor; propagação adequada dos conteúdos; promoção do diálogo e progressão de tudo isso. É algo simples, direto e básico, mas bem interpretados e estudados, direcionam qualquer indivíduo para o mundo da mídia social. Seguido os preceitos, basta ter atitude para estar inserido, cá entre nós, a parte mais difícil .
Eu praticamente fiz um refresh” do post sobre o #NOBCriciuma. Qual a relevância disso? Se você leu este post, perceberá que tive o trabalho de levantar quem realmente fez o seu twitter no evento e como esse tema está relacionado à capa da revista Época, publicada em 14 de março. Vale a pena, principalmente porque deu para perceber que a turma de Criciúma continuou o movimento.
Nas últimas semanas a polvora! ganhou destaque no SBT (SBT Realidade) e na Globo (Jornal da Globo). Pensei comigo: “o que faz a mídia tradicional dar valor para as mídias sociais nessa intensidade?” Olhei o volume de Social Media Workshops e Trainings que fazemos. Nos cursos e eventos que participamos, além das aulas, a convite de gentís professores visionários que nos convocam. Recebemos, em média, dois convites para eventos por semana. Não é nada remunerado, pois sabemos de nosso papel de evangelizadores de mercado.
Semana passada estive em Joinville (SC). Tomei café da manhã com um admirável executivo que, de forma espontânea, destacou a importância de quem se “converteu” do mundo corporativo para o das mídias sociais. Ele usou os termos “tradutor” e “intérprete” entre os dois mundos para explicar nossa missão (polvora!) nesse mercado. Inevitavelmente, voltei no calendário e lembrei da época que eu falava das mídias sociais com entusiasmo e era visto como um louco. De louco para intérprete parece ser uma boa evolução, não na minha visão, mas do mundo.
Os evangelizadores e intérpretes se multiplicaram nos últimos tempos e chegaram às mídias, com assertividade e consistência. Tá explicado, então, porque esse mundo maravilhoso ganhou a atenção das mídias tradicionais.
“O que os olhos não vêem o coração não sente”. Hoje é praticamente impossível a informação relevante, emocionante, solidária, deixar de chegar até nós. Podemos escolher se é pelo meio tradicional (rádio, TV, jornal, revista…) ou pelas mídias sociais (flckr, youtube, twitter, blogs…). O fato é que as atitudes e pensamentos mudaram de forma significativa.
Até pouco tempo, doar era uma opção bonita, para raras pessoas, do ponto de vista da sociedade. Mas a colaboração na internet derrubou algumas barreiras de visão, cultura e expressão, invadiu a mídia tradicional e as duas juntas formaram uma pororoca sem fim. É difícil algo passar impune. Deixar de doar ficou estranho.
A diversidade na forma de doar passou a ser mais discutida. Eu mesmo cresci com a pontual, muito acentuada no final do ano com o “espírito natalino”. Depois parti para uma sustentável, onde cozinhava todos os finais de semana numa creche para crianças na periferia de Uberaba – MG. Hoje faço parte de uma comunidade japonesa e atendo como voluntário, mensalmente.
No ano passado, a RMA Comunicação ajudou de forma estruturada o Centro de Assistência Social do Jardim Peri. Em nome de cada cliente, doamos um kit de final de ano, preparado sob medida (roupas, alimentos, brinquedos…) para as crianças, que escrevem e desenham livremente as suas mensagens de agradecimento. Neste ano, estendemos a ação para o nosso network por meio da polvora!. Aumentamos de 50 para 100 o número de crianças beneficiadas. Dessa vez foi possível gravar os testemunhos das pessoas, mostrando um pouco mais do belo trabalho desenvolvido naquele bairro.
É claro que novos e próximos passos dependem do resultado da colaboração, do engajamento das pessoas participantes. Faça parte dessa rede e doe o seu tempo, a sua intenção, a sua atenção… Veja aqui.
No mundo corporativo existe um termo que será usado como refrão nesses tempos de crise: Qual é o retorno do investimento (ROI) deste projeto? Não estranhe se o mesmo questionamento for aplicado 10x mais nos projetos de mídias sociais.
O ponto é que nos projetos de mídias sociais, o termo correto é Return On Engagement (ROE), isto porque os efeitos costumam não ter começo – meio – fim, como nos projetos tradicionais de comunicação. Ele perpetua. O “bilhete premiado” é único, mas depende do seu dono fazer bom uso dele.
Nas campanhas em mídias tradicionais, as pessoas são bombardeadas de novidades e serão mensuradas pelo poder e ato de consumo. Nas campanhas em mídias sociais – idôneas -, as mesmas pessoas são atraídas e terão opinião própria mesmo antes do ato de consumo, pois buscarão referências na percepção de outras pessoas. Na verdade, elas conversarão entre si, apesar da falta de intimidade – naquele momento. Unidas por um forte interesse terão ainda mais motivos para influenciar na decisão de milhares de outros interessados num mesmo assunto.
E qual é a grande descoberta de tudo isso? As pessoas compartilham interesses mas, ao mesmo tempo, fazem uso das mídias sociais na frequência, volume e formato que bem entenderem, o que já não seria possível nas mídias tradicionais.
Veja o exemplo do Dr. Leonardo Diamante, 65 anos, médico paulistano que foi atraído pelo mundo das mídias sociais e personaliza um caso de sucesso atípico nos dias de hoje. Sua forma espontânea e engajada de falar do assunto mereceu destaque no ” Circuito integrado”, blog do Informática da Folha Online.
Em entrevista ao Social Media Club, Dr. Diamante explica o seu fascínio pelo tema e experiências vividas recentemente.
Quando surgiu o interesse por mídias socais? LD – O interesse pelas mídias sociais acho que sempre existiu, porém foi incrementado com a minha chegada na Intersystems, quando juntamos a fome com a vontade de comer. Eles estão precisando de um trabalho que tenho muita facilidade para desenvolver, porém com opiniões próprias e às vezes contundentes. Tenho uma preocupação constante de transmitir credibilidade nas informações o que não é a regra na área da saúde na Web.
Qual a sua visão sobre a importância desse tema para os dias de hoje, especialmente no mundo corporativo? LD – Acho que nenhuma grande corporação vai ter uma boa postura em todos os aspectos se ela não levar em consideração a comunidade em que ela atua, qualquer que seja ela, e procurando juntar todos os seus pedaços, que me parece é o grande segredo, principalmente pela carência na área da saúde. Tenho minhas dúvidas se este processo não é suficiente caro para desestimular os nossos empresários. Espero que não. Consigo vislumbrar este movimento como aquele que vivemos tempos atrás com a comunidade dos radioamadores. Não sei se você pegou esaa época, mas vejo muitas semelhanças, tanto que alguns radioamadores estão procurando novas posições que na verdade são as mídias sociais. Temo que a Web seja um local onde as pessoas podem se esconder ou se manifestar de forma incógnita, criando problemas e daí a falta de credibilidade. As corporações precisam se convencer de que este movimento é irreversível e não podem entender como despesa e sim investimento de recursos, pois seguramente terão retorno expressivo.
Como surgiu a idéia de criar o blog “Controvérsias, Dúvidas e Bobagens”?
LD – O blog surgiu espontaneamente, como uma necessidade de entender esta coisa toda e exercitar a escrita, a linguagem, etc… e surpreendentemente descobri um lugar excelente para escrever tudo o que penso (ou quase tudo). Todas as minhas dificuldades iniciais estão sendo atendidas pelas meninas da Intersystems e vocês todos, que têm me ajudado e estimulado bastante
Quais foram suas principais experiências de aprendizado com tudo isso?
LD - Esta resposta já envolve alguma complexidade e acho um pouco cedo para responder, mas de uma forma geral diria que a possibilidade de tirar as coisas da cabeça para por no papel de uma forma simples, rápida e eficiente é espetacular. Tenho também a sensação de que as pessoas estão sedentas por informações. E o que eu ainda não vejo claramente é quem são as pessoas (camada social) que vão mais se beneficiar com este projeto.
O que o Sr. recomenda para aqueles que desejam entrar nesse mundo, mas têm receio em começar?
LD – A pessoas não podem ter medo de viver e de expressar suas opiniões, a escrita passa a ser apenas uma consequência natural. Acho que devemos saber “o que” e “porque” queremos. Evidente que tem que haver um mínimo de aptidão para escrever.
A minha conclusão: vivemos num mundo que tem como referência o ROI em vendas imediatas. E qual é o valor das pessoas que se engajam num tema em profundidade como o Dr. Diamante? Como medir tudo isso? Certamente ele continuará conversando com muitas pessoas. Quantas serão? Qual será o seu grau de influência na opinião de outras pessoas? Talvez um dia, ao participar de um painel de debates, alguma empresa olhe para o Dr. Diamante e diga: “nossa, esse Sr. construiu uma reputação incrível para estar neste evento! Como será que isso aconteceu?”
Quem vive inserido nas mídias sociais descobre um novo mundo e fala com muita excitação sobre as descobertas e resultados em rodas de conversas. Por outro lado, muitos dos que ouvem, nos enxergam com doses diferentes de preconceito, justamente por continuarem numa cultura mais tradicional, porém sem tanta flexibilidade.
Pois bem, a vitória de Obama, o 44o. presidente dos EUA, o primeiro negro a assumir a Casa Branca, rompeu vários preconceitos até então. O maior de todos eles, na minha opinião, foi associar a postura dos democratas, às mídias sociais, no momento em que procuraram entender os anseios da população norte-americana e estabelecer o diálogo.
Foi a vitória do diálogo versus a imagem dura e impositora dos republicanos. Representa hoje o maior caso de sucesso das mídias sociais, reconhecido publicamente pelos meios mais tradicionais de comunicação. Recentemente, num painel mediado por Monica Waldwogel sobre a estratégia da campanha de Obama na Globo News, ganharam destaque:
Youtube: antigamente os comentaristas políticos escreviam seus pontos de vista sobre determinados fatos e os leitores apenas ecoavam em suas conversas. Hoje, com o Youtube e demais comunidades que compartilham vídeos, as próprias pessoas tiram suas conclusões sobre os fatos. E,em caso de dúvidas, assistem repetidas vezes até tirarem suas próprias conclusões.
Engajamento dos hubs: outra postura ressaltada foi o empenho dos “hubs sociais” em buscar a vitória desde o primeiro dia da campanha. Segundo os analistas, entre eles, Paulo Sotero, do Brazil Institute, Woodrow Wilson Center, Obama esteve presente nas redes sociais por meio de representantes legítimos e motivados.
A política ficou [muito] mais interessante com as mídias sociais
Apesar do estrondoso sucesso da campanha de Obama, a política tempos atrás era considerada um tema “bode” para a grande parte do povo brasileiro. Chegamos a tal ponto que as notícias a respeito de mala de dinheiro, notas na cueca, contradições em discursos e troca-troca de partidos politicos passam tão inócuos por nossos olhos e ouvidos quanto aqueles filmes publicitários do Baú da Felicidade exaustivamente repetidos no SBT.
No meu caso, senti que faltava um eixo…aquele fiozinho de esperança para não me desconectar de vez de um tema tão importante para todos nós. E foi conversando com empresários, jornalistas e blogueiros; lendo muito e assistindo a entrevistas que conclui: vou mudar!
Tempos atrás eu almocei com Pedro Dória que relatou suas agruras em apoiar Gabeira no Rio de Janeiro, pouco antes de viajar para os EUA a trabalho e estudo. Meses depois, fiquei feliz ao ler sua materia “Obama cria rede social para organizar voluntários”, relatando “do meio do caldeirão” a vitória do presidente que melhor soube usar as mídias sociais.
Quem explica de forma catedrática as bases desse cenário é Henry Jenkins, diretor do MIT Comparative Media Studies Program e autor do livro Cultura da Convergência: “Estamos numa época em que, ao mesmo tempo, somos audiência e autores. Antigamente fã era a pessoa que assistia de longe o seu ídolo, agora esta mesma pessoa participa, interage, contribui.”